segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

FUTEBOLISTAS: os melhores (L'Equipe) e os mais bem pagos de 2011 (Forbes)... ou como o marketing ilude o rendimento.



Pouco depois do jornal L’ Equipe ter publicado o seu “ONZE de 2011”, a saber:

Neuer (B. Munique); Daniel Alves (Barcelona), Piqué (Barcelona), Vidic (M. United) e Marcelo (Real Madrid); Xavi (Barcelona), Busquets (Barcelona) e Iniesta (Barcelona); Silva (M. City), Ronaldo (Real Madrid) e Messi (Barcelona)

a revista Forbes publicou o seu “TOP 10” dos jogadores mais bem pagos do Mundo (salários, patrocínios e contratos de publicidade) durante este ano que findou.

Nenhuma delas constitui verdadeira surpresa para quem acompanha o “desporto-rei” já que tanto uns (os de maior rendimento) como os outros (os mais bem pagos) são sobejamente conhecidos. No 11 do L’Equipe pontificam, de facto, jogadores que tiveram grande rendimento no ano findo, pelo que não se estranha que nesse 11 pontifiquem nada menos que seis jogadores do Barcelona, que tiveram um ano em cheio (campeões de Espanha, campeões europeus e vencedores do Mundial de clubes, além das Supertaças de Espanha e da Europa).

Surpresa, ou talvez não, é o facto que, ao contrário do que seria lógico, estas listas não se interceptem tanto quanto seria de esperar… sendo que em 2011 apenas 2 nomes, incontornáveis do futebol da actualidade, constam de ambas: Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, 2º e 3º, respectivamente, no TOP 10 dos mais bem pagos jogadores de futebol.

Curiosamente, se Messi, fruto do seu talento natural e do rendimento colectivo do Barcelona, se tem superiorizado, nos títulos e honrarias, à capacidade atlética de Cristiano Ronaldo, o português bate o argentino em popularidade e mediatismo. Dois jogadores diferentes, sim… e dois produtos da indústria do futebol igualmente diferentes. Cristiano, mais extrovertido e com uma vida particular mais sujeita a atenção da “imprensa não desportiva” é o jogador com mais seguidores no Facebook, contando com mais de 37 milhões de fãs. Não custa pois perceber que com o seu salário milionário no Real Madrid e os fabulosos contratos com a Armani, Coca-Cola, Castrol e Nike tenha atingido os 29,4 m€ em 2011. Messi (o actual melhor jogador do Mundo) é, apesar dos títulos colectivos e individuais, mais introvertido e menos explosivo, e como tal um produto em que as marcas não investem tanto, quedando-se pelos 24,7 m€, fruto da remuneração que lhe paga o Barcelona e dos contratos publicitários com a Dolce & Gabanna, Pepsi e Adidas.

Que Messi e Ronaldo estejam em ambas as listas (Forbes e L’Equipe) nem se questiona, é natural. A verdadeira questão é outra: não deveriam ser “os mais bem pagos” aqueles que, comprovadamente, “maior rendimento” têm tido nos últimos anos? A resposta inocente e pueril seria um redundante “sim”, mas a elevação dos jogadores de futebol a “Deuses” subverte a lógica da Meritocracia. O “marketing”, e também uma sociedade que (não obstante a crise) se focaliza mais no “ter” do que no “ser”, viabilizam que os “marketers” apostem nos mediáticos “profissionais da bola” para venderem os seus produtos. Com sucesso.

David Beckham é o exemplo supremo desta realidade. Nunca foi (em Manchester, no Real Madrid ou no Los Angeles Galaxy) um jogador extraordinário… Há mesmo quem diga, com alguma razão, que é o jogador que mais ganha por cada passe lateralizado que faz ou por cada canto ou livre que bate… e no entanto voltou a ser em 2011 o jogador que mais auferiu (muito por força dos contratos com a Adidas e com a Samsung) ao encaixar 30,9 milhões de euros (m€), sendo neste momento, e apesar do triunfo na Major League Soccer (“em terra de cego quem tem olho…”), mais uma marca (que se estime valer 169,7 m€) do que um jogador de futebol de alto rendimento. A sua imagem vale claramente mais do que a sua qualidade desportiva. Prova-o ter recusado recentemente ingressar no PSG (com um vencimento mensal de 800 mil euros) onde poderia voltar a ser um jogador de futebol "a sério" (lutando esta temporada pelo título francês e na próxima época marcando presença na Liga dos Campeões), para continuar a ser, tudo indica, uma "Pop Star".

Beckham não é, contudo, caso único de jogadores que auferem muito mais do que o seu rendimento actual justifica. Que fazem hoje no futebol internacional, para justificarem presença no TOP 10 da Forbes, jogadores como Ronaldinho Gaúcho
(de volta ao Flamengo mas ainda sem lugar no “escrete”), Thierry Henry (desterrado nas ultimas temporadas, como Beckham, no pouco cotado futebol norte americano, este ao serviço do New York Red Bulls, e que agora regressa ao “seu” Arsenal para uma segunda metade da temporada 2011/12 sem grandes perspectivas de titularidade) ou Frank Lampard (actual suplente de luxo de André Villas Boas) ??? Pouco, muito pouco…ou nada. Sejamos claros: são jogadores com lugar na história do futebol moderno, é certo, mas que actualmente auferem em função do que fizeram e do que o seu nome é enquanto marca e não em resultado daquilo que produzem por estes dias nos relvados.

No entanto em 2011, Ronaldinho (considerado duas vezes o melhor jogador do mundo) ainda conseguiu (na pujante economia Brasileira que vai resgatando as suas glórias) auferir 18,6 m€ e ser o 5º mais bem pago do Mundo; já Thierry Henry conseguiu ser 6º ao encaixar 16,2 m€ (mesmo já sem o contrato com a Gillette findo em 2010) não sentindo dificuldades, diz-se, para comprar uma casa em Nova Iorque avaliada em 11,5 m€ (…); e, por fim, Frank Lampard, já sem “levar o Chelsea às costas” ou ser seu titular absoluto, ainda auferiu 13,1 m€ (dos quais “apenas” 8,5 m€ em salários) cotando-se como o 9º mais bem pago do ano.

Um outro grupo de futebolistas – ainda no topo das suas capacidade futebolistas mas cuja produção em 2011 não foi particularmente brilhante – está no TOP 10 da Forbes sem ter sequer rendimento para estar nos suplentes do 11 do L’Equipe. Falo de Kaká (4º), Wayne Rooney (7º), Zlatan Ibrahimovic (8º) e Samuel Eto'o (10º). O brasileiro Kaká, que fruto de várias complicações físicas não é titular do Real Madrid de Mourinho, auferiu 19,3 m€, boa parte certamente por ter sido o rosto da capa do popular jogo EA Sports FIFA Soccer (do qual a FIFA vendeu 100 milhões de unidades). Rooney, que mantém acordos com a Nike e a a Electronic Arts, ficou a dever, consta por aí, ao seu irascível feitio a perda de um contrato que o elevaria ao nível de Beckham, quedando-se por isso por um “modesto” rendimento anual de 15,5m€ ao serviço do Manchester United. O também temperamental sueco Ibrahimovic auferiu este ano, com a camisola do AC MIlan, cerca de 13,1 m€ (ele que está avaliado em mais de 45m€). Finalmente o camaronês Eto’o (eleito quatro vezes o prémio de melhor jogador africano) que depois de trocar Barcelona por Inter de Milão trocou os italianos pelos (modestos mas endinheirados) russos do Anzi - num contrato que certamente lhe permitirá subir algumas posições em 2012 – foi em 2011 o ultimo da lista Forbes com “apenas” 11,6m€, pouco mais que 1/3 do auferido por Beckham… pois.


Marketing e Rendimento, duas realidades bem distintas do futebol, como decorre da listagem da Forbes que se recapitula:

1 - David Beckham - 30,9 milhões de euros
2 - Cristiano Ronaldo - 29,4 milhões de euros
3 - Lionel Messi - 24,7 milhões de euros
4 - Kaká - 19,3 milhões de euros
5 - Ronaldinho - 18,6 milhões de euros
6 - Thierry Henry - 16,2 milhões de euros
7 - Wayne Rooney - 15,5 milhões de euros
8 - Zlatan Ibrahimovic - 13,1 milhões de euros
9 - Frank Lampard - 13,1 milhões de euros
10 - Samuel Eto'o - 11,6 milhões de euros

Duas notas finais: i) numa altura em que pela Europa e pelo Mundo a crise económica se faz sentir de forma tão acentuada, dá que pensar como podem existir entidades que remunerem, nesta ordem de grandeza, as suas maiores individualidades; ii) não se culpe o futebol por esta prática quando no TOP 25, também da revista Forbes, dos atletas mais bem pagos do Mundo o futebol apenas coloca 4 atletas, a saber:

01. Tiger Woods (Golfe): US$ 75 milhões
02. Kobe Bryant (Basquetebol): US$ 53 milhões
03. LeBron James (Basquetebol): US$ 48 milhões
04. Roger Federer (Ténis): US$ 47 milhões
05. Phil Mickelson (Golfe): US$ 46,5 milhões
06. David Beckham (Futebol): US$ 40 milhões
07. Cristiano Ronaldo (Futebol): US$ 38 milhões
08. Alex Rodriguez (Baseball): US$ 35 milhões
09. Michael Schumacher (Fórmula 1): US$ 34 milhões
10. Lionel Messi (Futebol): US$ 32.3 milhões
11. Fernando Alonso: 32 milhões de dólares
12. Rafael Nadal: 31.5 milhões de dólares
13. Valentino Rossi: 31 milhões de dólares
13. Tom Brady: 31 milhões de dólares
15. Lewis Hamilton: 30 milhões de dólares
16. Derek Jeter: 29 milhões de dólares
17. Dale Earnhardt Jr.: 28.5 milhões de dólares
18. Yao Ming: 27.7 milhões de dólares
19. Dwight Howard: 27.6 milhões de dólares
20. Dwyane Wade: 26.2 milhões de dólares
21. Peyton Manning: 26.1 milhões de dólares
22. Ichiro Suzuki: 26 milhões de dólares
23. Carmelo Anthony: 25.1 milhões de dólares
24. Kaká (Futebol): 25,2 milhões de dólares
25. Manny Pacquaio: 25 milhões de dólares

1 comentário:

  1. Bem visto, bem focado e bem verdade, é isto de que é feito o futebol hoje em dia, de imagem, faltando jogadores a sério, que vistam camisolas e que honrem o emblema. As marcas muitas vezes são culpadas por estes valores, enchendo bolsos e valorizando ou destacando aqueles que lhes interessam, arrasando outros! Depois em campo há jogaores sem pernas, pois tiveram pouco tempo de descanso entre as viagens e compromissos publicitários, quase relegando o seu verdadeiro trabalho, futebol, para segundo plano!
    Um abraço

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