quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A NOVA (?) ERA DA LIGA DE CLUBES

CAPITULO 1 de 3:
O “abandono” de Fernando Gomes:
diz-me quem foste e com o que pactuaste e dir-te-ei quem serás sempre…

O futebol português, goste-se ou não, assuma-se ou assobie-se para o ar, está doente. Não falo da qualidade técnica da nossa principal liga; não falo dos valores que, quase por milagre, vão emergindo dos escalões de formação até à idade sénior; não falo da paixão com que o adepto português vive as incidências do jogo, torce pelo seu clube e acompanha com orgulho a sua Selecção (sobretudo quando esta espreita o sucesso…). Falo do poder instituído que muitos chama(ra)m de “sistema” e que mais que um “sistema” é, na verdade, uma tenebrosa teia de compadrios, influências, corruptos e corrompidos que servem um único objectivo, um único senhor.

As escutas e o “Apito Dourado” puseram a nú os seus principais actores – e esses continuam livres de ocupar cargos directivo, de entrar em recintos desportivos e, pasme-se, sem vergonha de opinar sobre arbitragens – expondo a forma como as arbitragens durante anos garantiram (será este o tempo verbal correcto de utilizar?) que a verdade desportiva fosse uma mera miragem. 

Infelizmente a doença grave de que padece o futebol nacional vai para além da corrupção sobre a arbitragem (alguma, pois nem todos serão – tenho a certeza - corruptos ou corruptíveis) e a manipulação de jogos “à peça”, branqueados com relatórios de observadores remotamente comandados.

A "podridão" - recentemente confessada por António Oliveira – estende-se ao implícito, e supremo, poder de um grupo privado sobre as principais instâncias do futebol nacional (Federação Portuguesa de Futebol “F.P.F “, Liga Portuguesa de Futebol Profissional “L.P.F.P.“ e Conselho de Arbitragem), servindo os propósitos do “sumo pontífice” do futebol indígena.
(declarações de António Oliveira)

Sem surpresa, excepto na confissão que peca por tardia, o ex-seleccionador indiciou que o presidente da F.P.F. serve os interesses de um grupo privado, o qual se sabe serve (para lá de perseguir o ganho económico) claros interesses, que estão geográfica e desportivamente bem definidos.

Mais surpreendente que o publico assumir do que todos sabem, foi de facto o “ensurdecedor silêncio” (da comunicação social, dos visados e dos vitimados) que se lhe seguiu. Mais estranho que o silêncio em si, é a magnitude da conivência que tal silêncio deixa implícita.

Não foi pois de estranhar que o “polvo” tenha feito “evoluir”, em determinada altura, Fernando Gomes de Administrador da SAD azul-e-branca para presidente da L.P.F.P. (com o que isso representava na altura quanto ao domínio sobre a arbitragem e a disciplina) e, agora, da L.P.F.P. para a F.P.F. (curiosamente, se quiser ser irónico, quando se sabe que a jurisdição de arbitragem e da justiça a ela ficarão entregues).

Fernando Gomes é um dirigente que percebe da “indústria futebolística” e que tudo fará para que a mesma seja tão rentável e pujante quanto possível? Não duvido por um segundo… Mas “rentabilidade” e “verdade desportiva” são coisas bem diferentes e, nesse capítulo, a espinha que se atravessa na garganta do observador isento, é de que Gomes era Administrador relevante da F.C.P. SAD à data de todas as escutas que o “youtube” revelou… É certo que delas não consta, mas sendo figura de proa do clube de Jorge Nuno Ponto da Costa, parece algo impossível, não sendo, que não tivesse sido conivente com tais práticas… e isso diz que tendo sido zeloso quanto à “rentabilidade” não foi particularmente activo quanto à defesa da “verdade desportiva”. Pode vestir-se de cinzento, de preto ou de quaisquer outras cores do arco-íris… tenho para mim que, por dentro, nunca deixará de pensar e sentir azul e branco, nem de servir, acima de todos os outros, os interesses do clube que sempre diligentemente serviu.

CAPITULO 2 de 3:

O sucessor dinástico Mário Silvares Figueiredo:
diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és…

Desviado Fernando Gomes para a Federação, muita curiosidade havia quanto à sua sucessão. De um lado António Laranjo com o alegado apoio dos “3 grandes” (que, diga-se a verdade, se desinteressaram destas eleições não tendo feito grande trabalho de “lobby” de outras batalhas) e mais 5 outros clubes da 1ª Liga, do outro um “ilustre desconhecido” surgia com o apoio de clubes com menor capacidade financeira, o advogado Mário Silvares Figueiredo.

Curiosamente venceria o “desconhecido”, sobrando para António Laranjo a surpresa de verificar que dos 8 votos certos da 1ªLiga apenas nele votaram 7, e que do propalado voto “em bloco” dos clubes da Liga Orangina, também 9 clubes furaram tal sentido de voto… Tudo dito? Não… ainda há mais e com manifesto interesse.

Feito o “Raio X” ao homem que vai liderar os desígnios do Futebol Profissional em Portugal descobre-se que é sócio da sociedade de advogados Gil Moreira dos Santos, Caldeira, Cernadas & Associados, a
GMSCC & Associados. Se daqui nada de transcendente resulta, intensificando a potencia do”Raio X” verificamos que Gil Moreira dos Santos foi “apenas” o advogado que defendeu Jorge Nuno Pinto da Costa no processo “Apito Dourado” (e Pinto da Costa não confiaria nunca a sua defesa a quem não tivesse absoluta certeza de partilhar dos seus ideais e objectivos) e que Adelino Caldeira é um dos Administradores da F.C.P. SAD.

No fundo, temos um ex-Administrador desta Sociedade Anónima Desportiva na cadeira Federativa, e um sócio de outro destes Administradores numa sociedade civil, na cadeira da Liga Profissional. É, no mínimo, interessante a “coincidência”, não?

Pode o alemão, e famoso, “polvo Paul” ter morrido… mas a verdade é que a capacidade de prever (interferir?) resultados estará a salvo no pujante “polvo tuga” que, pujante e sem grandes dificuldades, assegurou uma sucessão dinástica na L.P.F.P. e deu provas de estar bem vivo.

CAPITULO 3 de 3

A linha programática do novo Presidente da Liga:
diz-me o que defendes, digo-te quem serves…

Quem me lê, pode estar por esta altura a pensar que estou viciado na Teoria da Conspiração e que o que me move é o ataque puro e duro ao coração do polvo. Se assim fosse, teríamos as principais medidas programáticas do novo líder da L.P.F.P. para me desmentir, contudo quais foram as suas grandes bandeiras eleitorais? O alargamento da 1ªLiga para 18 clubes e a negociação conjunta dos direitos televisivos.

A quem serve o alargamento da 1ª Liga? À competitividade do futebol nacional certamente que não é, pelo contrário, essa certamente recomendaria à redução para número inferior aos actuais 16 clubes, com um quadro competitivo diferente. Em minha opinião, com 12 clubes (22 jornadas) de época regular) e um “play-off” entre os seis primeiros (para o titulo) e outro entre os demais (luta pela permanência) gerando mais 10 jornadas. O alargamento para 18 clubes, a deliberar (entenda-se aprovar) em sede da Liga onde os clubes votantes querem tentar aumentar as probabilidades de estar no escalão principal, mais do que as receitas de 4 jornadas adicionais (com muitos jogos com assistências medíocres de menos de mil espectadores) parece destinado a servir para que o polvo incremente o número de “clubes satélite” onde semeia treinadores e jogadores, que lutam como gladiadores contra (quase) todos os clubes que não a “casa-mãe”.

A quem serve a negociação conjunta dos direitos televisivos? Certamente a todos os clubes menos aquele que gera, por si próprio e pela representatividade demográfica, muito mais de 60% ou70% das receitas do futebol lusitano e que está em fase crucial da sua negociação, falo naturalmente do Sport Lisboa e Benfica (“S.L.Benfica”). Já os outros “2 grandes” têm acordos de relativo longo prazo pelo que nunca ficarão a perder, assim como todos os demais que receberão igualmente mais se no “bolo” estiverem todas as receitas, inclusivamente as geradas pelo S.L.Benfica.
O alargamento, em função de quem o vota, parece-me uma intenção irreversível…faltando garantir, a bem da verdade desportiva, que em 2011/12 desçam duas equipas (premissa vigente na 1ª jornada e única forma de garantir o “não relaxamento diferenciado” em equipas perante uns e outros adversários) e que apenas em 2012/2013 se inicie uma temporada com o número de equipa que a L.P.F.P. decida e a F.P.F. ratifique.

Já quanto aos direitos de transmissão televisiva e a possibilidade da sua negociação conjunta, parece-me neste momento um "canto de sereia" que serviu um fim eleitoral concreto mas que terá, manifestamente, poucas probabilidades de ocorrer.

Certo certo é que “o polvo não dorme” e com esta, bem orquestrada, movimentação de cadeiras, assegura não só as “cadeiras de sonho” da L.P.F.P. e da F.P.F, mas também o domínio sobre a Disciplina e a Arbitragem, para além de fazer crescer o numero de clubes “cartelizados” que, a troco de empréstimo de jogadores (e treinadores) se vende…

É o futebol à imagem do país. Descredibilizado.

3 comentários:

  1. Mas se o Benfica ganhar, está sempre tudo certo, certo?

    Já mais que uma vez falei contigo sobre este assunto e continuo convicto que no deve e haver dos 3 grandes, ninguém se pode queixar muito, está tudo por igual e até acho mal que se continue a optar por essa caça às bruxas azuis e brancas...

    Penso eu de que...

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  2. Se o S.L.Benfica (ou qualquer outro não gerido na Invicta) ganhar, significa que não lhe bastou ser melhor... terá sido certamente muito melhor.

    Discordo em absoluto que no deve e no haver as coisas se equivalem...longe de ser equitativa ou sequer comparável meu Amigo.

    Numa sociedade democrática, quem comete crimes deve ser punido...a corrupção jamais deveria prescrever ou ficar refem de questões técnicas como as que inviabilizaram as escutas de serem "prova" (que são...) no Apito Dourado...

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  3. Fossem todos estes os problemas da justiça neste país... Mesmo!

    Quanto ao deve e haver, mantenho a minha convicção... E não é por falar de barriga cheia! Para quem não é do FCP, quando o FCP ganha, é porque foi beneficiado. Quando ganha quem não é FCP é sempre dupla vitória: ganham pq foram mto melhores e ganham contra o sistema. Está certo...

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