As primeiras reacções, de amigos e colegas, a este meu BLOG foram no sentido de questionar se não será um erro tentar “meditar futebol”, quando a minha imparcialidade poderá ser sempre questionada fruto da minha colaboração com a Benfica TV?
Curiosamente tal abordagem partiu dos mesmos que quando se referem à Benfica TV gostam de enfatizar a sua parcialidade.
"Meditemos" sobre estas duas questões, diferentes entre si mas que se cruzam, tentando desmistificá-las e esclarecer aquela que é a minha opinião e postura sobre tal matéria.
A DIFERENÇA ENTRE UM JORNALISTA E UM COMENTADOR
Talvez deva começar por recordar a diferença entre um Jornalista e um Comentador. O primeiro, segundo a máxima do jornalismo, deverá preocupar-se em informar, de forma objectiva, isenta e imparcial, aquele que é o seu destinatário. Ao segundo competirá interpretar, comentar e/ou opinar sobre o facto, evento ou noticia em análise.
Se a ambos - Jornalista e Comentador - adicionarmos a palavra “Desportivo”, mais do que catalogar a função, somamos-lhe certamente a paixão e a carga emocional que o desporto, no geral, e o futebol, em particular, geram na esmagadora maioria da população portuguesa.
Esta dose de emoção confere habitualmente ao Jornalista a possibilidade de, sem perder isenção, cunhar num jeito muito seu, a forma de “passar a notícia”, usando a oralidade ou a ortografia para o fazer, quase que a seu belo prazer. Nem todos o fazem, resta perceber se por manifesta falta de jeito ou se por temerem que tal prática/atrevimento poderá beliscar o seu prestigio aos olhos dos seus pares jornalistas, desportivos ou não. Há porém, felizmente, os que assumem a cobertura de um evento desportivo como um momento sadio, de cor, de celebração, de espectáculo...de emoção! Quem não recorda a forma muito própria de relatar jogos de futebol, na rádio, do falecido Jorge Perestrelo ou, mais recentemente, as músicas personalizadas que João Ricardo Pateiro canta para alguns jogadores da Liga Zon Sagres?!
Dois casos de Jornalistas Desportivos, com amor clubistico confessado aos quatro ventos, que canta(va)m com a mesma energia e emoção os golos de qualquer clube. Dois exemplos de que os Jornalistas Desportivos podem passar a noticia e a mensagem (cumprindo a função), sem perda de isenção e com o “extra” de emoção, e em alguns momentos de sadio e enérgico bom humor. Estes exemplos da rádio propagam-se a crónicas que podemos ler em jornais desportivos de alguns bons jornalistas da imprensa escrita, que ainda os há, apesar do muito “lixo” que polui as páginas desses diários.
Primeira conclusão: o Jornalista Desportivo pode transmitir/veicular a notícia sem ser “tão cinzento” ou formal quanto um jornalista de continuidade, de actualidade política, económica ou social. É aceitável e não o diminui, pelo contrário pode destacá-lo dos demais.
DOIS FORMATOS DE COMENTADOR DESPORTIVO: o ADEPTO e o IMPARCIAL
Passemos ao Comentador Desportivo e aos dois formatos mais conhecidos: o “confessado adepto de clube” e o “comentador (supostamente) imparcial”.
No primeiro destes grupos – o Comentador Adepto - encontramos o Miguel Sousa Tavares, o Miguel Guedes, o Manuel Serrão, o Rui Moreira, o Luís Guilherme Aguiar, o Eduardo Barroso, o Dias Ferreira, o Rui Oliveira e Costa, o Ernesto Ferreira da Silva, o Tomaz Morais, o António Pedro Vasconcelos, a Leonor Pinhão, o Fernando Seara, entre outros...
A este grupo de “opinion makers” - do qual já partiu o emblemático Pôncio Monteiro - ninguém pede imparcialidade. Todos nos habituámos a ouvir na televisão (em programas como “Os Donos da Bola”, o “Trio de Ataque”, o “Dia Seguinte”, o “Mais Futebol”, etc.) e a ler nos jornais desportivos, a sua defesa - por vezes de forma exacerbada - das respectivas cores. É assim porque há, e haverá sempre, mercado para esta forma de expressão livre, apaixonada, parcial e emotiva… porque os adeptos se revêem nas suas posições. Falamos de futebol, nunca esqueçamos isso.
Segunda conclusão: tendo em conta o contexto (o canal ou programa de TV, a coluna de jornal ou a rubrica “on-line”) em que é convidado a veicular a sua opinião, quando na qualidade de “adepto confesso de clube”, o Comentador Desportivo, pode ser parcial, devendo contudo procurar preservar a racionalidade dos seus argumentos e posições.
No segundo grupo - o dos Comentadores Imparciais - temos aqueles que, por opção própria ou, sobretudo, pelo formato dos programas em que são chamados a intervir ou do próprio veículo em que o fazem (canal de TV, rádio ou jornal) tentam estar equidistantes dos principais clubes, acrescendo à objectividade factual, quase jornalística, a sua própria interpretação do facto objecto de comentário.
Neste segundo grupo temos nomes como o Nuno Madureira e o Valdemar Duarte (TVI), o António Tadeia, o Carlos Daniel e o Nuno Dias (RTP), o João Rosado e o Jorge Batista (SIC) o Pedro Henriques e o Luís Freitas Lobo (Sport TV), entre outros.
Entre o primeiro e o segundo grupo temos ainda o Rui Santos e o Ribeiro Cristovão que quase conseguem chegar ao segundo grupo, mas que a paixão pelas cores pelas quais torce Eduardo Barroso os atraiçoa e acorrenta ao primeiro grupo, ainda que mais comedidos e sabedores, no que ao futebol diz respeito, do que o médico.
Terceira Conclusão: em veículos de informação ou contextos que requeiram isenção, o Comentador Desportivo, mesmo que tenha clube e que tal seja do conhecimento de todos, deve primar pela máxima imparcialidade.
Desta última conclusão é possível deduzir que canais de televisão como a temática Sport TV e as generalistas RTP, SIC e TVI, quando transmitam jogos de futebol (ou qualquer outra modalidade desportiva) devam ser exemplos de objectividade jornalística (pelo jornalista) e de imparcialidade (pelos comentadores), devendo garantir - por respeito aos seus auditórios - que na sua antena estejam pessoas capazes de desempenhar o papel de Comentadores Imparciais e não de Comentadores Adeptos.
Falemos agora da Benfica TV. Não do que pode vir a ser se configurada em alternativa viável para a transmissão dos jogos do clube, mas daquilo para que foi concebida e que é hoje: um veículo para aumentar a eficácia de comunicação do clube para com os seus sócios e adeptos.
A Benfica TV, como é natural, vende um produto: o Sport Lisboa e Benfica. É um canal de clube, para o clube e para a sua massa adepta. Existe para levar a “marca” Benfica aos quatro cantos do Mundo, potenciando-a, no que esta tem de valores, de história, de presente e futuro. Não é um canal de futebol mas é um canal temático que respira e transpira Benfica. Futebol, sim mas não só… espaço para as modalidades, espaço para a formação, espaço para os adeptos, espaço para o projecto olímpico, espaço para as funções cívicas, sociais e solidárias da Fundação Benfica.
Só vê a Benfica TV quem quer e nela não deve esperar ver detracção do fim que serve. Faz sentido, verdade? Alguém encontra no Porto Canal ou no jornal do vizinho da 2ª Circular de Lisboa artigos/opiniões de “bota abaixo” contra a sua própria instituição? Certamente que não.
Tendo isto presente, continuo sem perceber porque há tantas pessoas que questionam a defesa intransigente do Benfica pelos Comentadores da Benfica TV, ou do F.C.Porto pelos Comentadores do Porto Canal, quando às mesmas pessoas nada incomoda, algum do anti-Benfiquismo de alguns profissionais de canais como a Sport TV (temática e cuja facturação e rentabilidade tanto deve aos jogos do S.L.Benfica) e das generalistas (e supostamente imparciais) RTP, SIC e TVI.
Quarta Conclusão: errado não é qualquer canal de TV do Benfica ou Porto (ou Sporting quando lá chegar) serem inteligentemente parciais na defesa das suas cores (afinal vendem um produto e querem agregar e motivar adeptos e nunca propagar momentos menos felizes ou contribuir para excessos de auto-critica); errado são os tais canais supostamente isentos (e que deviam ser exemplos de objectividade jornalística e de comentários imparciais) serem vergonhosamente tendenciosos…
Mais grave ainda no caso de profissionais da RTP que são pagos pelo comum contribuinte.
Mais grave ainda no caso de profissionais da RTP que são pagos pelo comum contribuinte.
Penso mesmo que seria recomendável (porque mais confortável e sensato) para alguns profissionais da “praça” pedirem transferência de funções. Se não conseguem (nem sequer tentam…) ser imparciais em veículos e contextos onde deveriam ser, porque não serem convertidos em “Comentadores Adeptos”? O Júlio Magalhães era um desses casos mas a sua recente “transferência profissional” resolveu o assunto.
Não quero ser cáustico nem acusador… mas penso que por não terem condições para respeitar a Terceira Conclusão supra, poderiam sem dificuldade e com elevado brilhantismo técnico, executar a Segunda Conclusão. Algumas das suas prestações recentes são exemplos de jornalismo distorcido – em contexto supostamente isento – e militantemente parcial de que o desporto nacional claramente não carece.
QUE COMENTADOR DESPORTIVO PRECONIZO
É mais fácil falar dos erros alheios do que das nossas próprias limitações? Vou tentar demonstrar que não, respondendo à obvia pergunta que se impõe: que Comentador Desportivo tento ser?
É simples.
Na Benfica TV, se o Benfica for o tema, serei sempre o Comentador Adepto, assumindo o meu genético benfiquismo, enaltecendo o que de bom se faz na casa e reconhecendo o que se podia ter feito melhor a cada jogo, de cada modalidade, de cada competição. Regozijarei a cada momento feliz e sofrerei em cada mau momento, mas não esperem nesses dias difíceis ouvir da minha boca palavras de condenação ou auto-destruição. Não dissimulo ou oculto emoções, não ignoro nem branqueio erros, mas não contem comigo para discutir na praça pública as eventuais/pontuais debilidades do clube pois para tal papel existem já muitas personagens para o fazer. Nem todas “não benfiquistas”, infelizmente.
Na mesma Benfica TV (se o tema extravasar o Universo Benfica) ou fora dela num qualquer outro contexto (TV, rádio, jornal ou internet) que exija maior isenção, serei com naturalidade - fiel às minhas cores mas sem a cegueira clubista que prejudica a interpretação dos factos – um Comentador Imparcial que procurará acrescer à objectividade dos factos a sua própria interpretação do evento objecto de comentário.
É na verdade muito simples. O Comentador Desportivo deve perceber em que contexto é convidado a expressar a sua opinião, devendo ter a habilidade de moldar o seu discurso – sem perda de objectividade naquilo em que acredita e que é a sua opinião – em função do papel que dele se espera no programa “Y”, na coluna”X” ou no espaço “Z”: o papel de Comentador “Adepto” ou “Imparcial”.
Em CONCLUSÃO: se o Jornalista deve ser rigoroso, objectivo e isento em qualquer contexto, penso sinceramente que o Comentador Desportivo pode ser parcial em contextos que o justifiquem (quando representa as cores de um clube num programa ou coluna, ou num veículo de informação desse mesmo clube) e deve fugir dessa parcialidade em contextos em que se aconselhe a isenção (num veículo, ou formato, generalista e isento).
Difícil aceitar – e são infelizmente tantos os exemplos – são os Jornalistas e Comentadores Desportivos que em contexto de isenção são militantemente parciais.
Nota Final: o futebol é só um desporto e um jogo (mesmo que “o” jogo). Nunca percamos disso noção em relação a tantas mais coisas que a vida se nos oferece, sim? Paixão sempre… fanatismo nunca!

Compreendo perfeitamente o que dizes porque, como sabes, estou dentro do mesmo dilema.
ResponderEliminarSe por um lado ser narrador é, teoricamente, mais simples do que comentador porque não requer tanta preparação, é complicado para QUALQUER narrador de QUALQUER modalidade ser isento porque existe o lado emotivo e clubistico do ser humano que está a desempenhar a sua profissão.
Se por uma lado é "fácil" fazer jogos internacionais por não estarem envolvidos os clubes do coração, por outro há aquela empatia criada com outros clubes através de um jogador, treinador ou História de um clube.
O trabalho do comentador, conhecendo eu os dois lados, é mais simples nesse sentido. Não há que festejar um golo do adversário mas há a tendência de "bater" na nossa equipa ou inaltecê-la dependendo da evolução do jogo.
Quem disso quiser exemplos tem vários mas podemos pegar em episódios recentes:
Num jogo de Infantis do Benfica contra o Sporting como é possivel para o narrador dar emoção aos golos do Sporting se não os sente como benfiquista que é? Como é possivel para dois benfiquistas assumidos estarem a fazer um bom trabalho quando o Benfica está a ser goleado no estádio do Dragão?
Vamos dificultar a coisa, como pode um narrador ,que deve ser parcial pois está a trabalhar para a Benfica TV, festejar um golo do Belenenses?
A verdade é que só quem lá está é que sabe o que custa ter de ser um GRANDE PROFISSIONAL isento. Nos canais temáticos e generalistas têm de o ser? Verdade têm. O lado emotivo pesa? Pesa. Então como é que se consegue conciliar os dois? A resposta é simples: sendo um GRANDE PROFISSIONAL!!!
Na pele de jornalista/narrador de facto não sei o quanto pode ser dificil... Mas deve ser muito, dada a quantidade de jornalistas que deveriam ser imparciais e manifestamente o não são...
ResponderEliminarQuanto "à vida" do Comentador penso que deve perceber em que contexto é convidado a expressar a sua opinião e depois ter a habilidade de moldar o seu discurso – sem perda de objectividade naquilo em que acredita e que é a sua opinião – em função do papel que dele se espera. É na verdade simples.
Abraço e obrigado pelo teu contributo.
Grande artigo Sérgio!
ResponderEliminarNão posso estar mais de acordo contigo! O que se passa na realidade, e que quanto a mim é o principal problema da informação desportiva, é ouvirmos/lermos/escutarmos profissionais que se intitulam jornalistas (profissionais da informação), especializados na vertente desportiva, a comentarem jogos/assuntos desportivos, a escreverem ou narrarem notícias desportivas e a não terem qualquer isenção, deitando abaixo um dos primeiros princípios apreendidos (ética) e o segundo e mais importante: o PROFISSIONALISMO!
Não se pede a um profissional, homem ou mulher, que seja profissional 24h, mas convém sê-lo quando trabalha! O que se passa é que em muitos casos a paixão clubística "fala" mais alto que o profissionalismo!
Penso que em Portugal (único exemplo que conheço) estamos pouco servidos de bons comentadores e jornalistas desportivos!
Não há ninguém isento, nem jornalistas nem comentadores. Há sim pessoas com medo de expressar os seus "pontos de vista" e opiniões.
ResponderEliminarÉs isento quando te mantens firme na tua convicção.
És coerente quando afirmas, desde que te conheço, que és benfiquista...
... e eu já te conheço à um bom par de anos.
Parabéns pelo blog.